Nas últimas décadas, práticas mediáticas e culturais feministas têm configurado ecologias discursivas onde produção simbólica, cuidado e organização coletiva se entrelaçam. Zines, microeditoras independentes, coletivos de cinema e vídeo, podcasts, arquivos comunitários, redes urbanas feministas e plataformas digitais constituem espaços de produção de sentidos, memória e solidariedade. Esta obra analisa estas práticas como ecologias discursivas feministas que articulam produção cultural e sustentação comunitária. Ao deslocar a atenção para as condições materiais, temporais e organizacionais da produção mediática, interroga-se como estas ecologias possibilitam a continuidade das ações feministas em contextos marcados pela precarização, pela aceleração digital e pela intensificação de mobilizações anti-género.
Particular atenção será dada às formas como cuidado, manutenção e criação de refúgios culturais se articulam com debates contemporâneos sobre resistência slow (Tan, 2025; Nixon, 2011). Sem reduzir a proposta a uma única lente teórica, a resistência slow surge como uma chave interpretativa para compreender práticas de duração, opacidade estratégica e sustentação coletiva.
Em diálogo com críticas feministas às temporalidades neoliberais (Fraser & Bhattacharya, 2019; Ahmed, 2014) e com estudos sobre memória e culturas DIY (Chidgey, 2014; Piepmeier, 2009), o volume articula análise discursiva e multimodal com atenção às infraestruturas que sustentam produção, circulação e comunidade. Ancorado em contextos lusófonos, o livro acolhe estudos centrados em Portugal, Brasil e noutros países de língua portuguesa, bem como análises comparativas, promovendo diálogo transnacional sobre média alternativos e produção cultural feminista (Atton, 2002).
Acolhem-se propostas que explorem, entre outras dimensões:
• Ecologias discursivas feministas e produção mediática
• Produção de sentidos e imaginários feministas
• Regimes de visualidade, sonoridade e materialidade
• Cuidado, refúgio e reprodução social como práticas culturais
• Culturas DIY, artivismo e produção independente
• Práticas audiovisuais feministas e sustentabilidade organizacional
• Resistência urbana e digital face a mobilizações anti-género
• Estratégias de visibilidade seletiva e opacidade
• Arquivo, memória e genealogias feministas
• Temporalidades feministas e resistência slow
Privilegiam-se abordagens discursivas e multimodais, estudos de cultura material, etnografias mediáticas e perspetivas feministas interseccionais e perspetivas transfeministas.
Submissão
• Resumo (500 palavras, com referências bibliográficas), em Português e em Inglês e breve nota biográfica até 30 de junho de 2026.
• Envio para resisteslow@gmail.com
• Textos completos (6.000–7.000 palavras), formatados de acordo com normas editoriais a divulgar, até 1 de novembro de 2026.
As propostas serão sujeitas a avaliação por pares. Prevê-se a publicação do volume numa das coleções do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. Para mais esclarecimentos, contactar zara@ics.uminho.pt
Ahmed, S. (2014). Willful subjects. Duke University Press.
Atton, C. (2002). Alternative media. Sage.
Blidon, M. (2025, 5 de agosto). Reclaiming the city: Feminist and queer resistance to “anti-gender” mobilisations. Urban Matters.
Chidgey, R. (2014). Handmade memories: Remediating cultural memory in DIY feminist networks. In E. Zobl & R. Drüeke (Eds.), Feminist media: Participatory spaces, networks and cultural citizenship (pp. 87-97). Transcript.
Fraser, N., & Bhattacharya, T. (2019). Feminism for the 99%: A manifesto. Verso.
Nixon, R. (2011). Slow violence and the environmentalism of the poor. Harvard University Press.
Piepmeier, A. (2009). Girl zines: Making media, doing feminism. NYU Press.
RESIST Project Team. (2024). RESIST D2.1 Report on the effects and everyday resistances to «anti-gender» mobilisations across Europe: A report on nine case studies. https://doi.org/10.5281/zenodo.11180745
Tan, J. (2025). Slow resistance: Feminist and queer activism in ‘illiberal’ contexts. European Journal of Cultural Studies, 28(6), 1900–1907.